Oriundo das caatingas da Icozeira, chegou em Curaçá Tertuliano Pires do Nascimento, popularizado como Tingo. A sua voz grave e forte tornou-se um cartão de apresentação e o tabuleiro de gamão, o jogo mais popular entre os homens da época, o quadrado de madeira onde exibia a sua privilegiada inteligência e ganhava admiradores. O fato de ser amigo bem próximo de Dr. Pompílio, a quem chamava de “pade Pompílio”, numa peculiar abreviação de compadre, lhe conferia o respeito das pessoas.
Dr. Pompílio, de tradicional família curaçaense, por décadas foi o único médico do município. Ele era proprietário da Fazenda Santa Maria, do outro lado do rio São Francisco, para onde ia frequentemente na companhia do amigo Tingo. Para chegarem lá, precisavam atravessar o rio, sempre no barco de Chico Coelho e pegavam as montarias no Barro Alto, o porto do outro lado, de onde seguiam viagem para a fazenda.
Certa manhã, Dr Pompilio e Tingo chegaram no porto de Curaçá para atravessar o rio e Chico Coelho, devidamente avisado, por alguma razão, não estava lá. O sempre calmo Dr. Pompilio, não conseguiu esconder o seu aborrecimento. Indo e vindo em passos curtos num pequeno espaço de chão, resmungava e externava a sua ira com o imprevisto que atrasaria a viagem. Vendo o compadre agastado com a situação, Tingo se ofereceu para levar o barco. Pegado de surpresa, Dr. Pompilio ponderou:
– Tingo, eu sei que você conhece de caatinga e gado e nunca soube que conhecesse o rio.
– “Pade Pompilio”, fique sossegado, que desse rio eu conheço da flor d’água às profundezas- afirmou Tingo com segurança
– Sendo assim… vamos lá- disse Dr. Pompilio se acalmando e sentando na proa do barco.
– Vou lhe provar o que digo- disse Tingo assumindo o comando com o remo nas mãos.
Barco empurrado pras água, alguns minutos de remada e eis que o barco bate violentamente numa enorme pedra semi submersa, abrindo um buraco no casco por onde começou a entrar água.
Ante o olhar assustado do amigo, Tingo, calmamente, reafirmou o seu conhecimento.
– Aqui mesmo tem uma pedra, “pade Pompilio”.
Por sorte estavam a poucos metros da margem e outro barco veio resgatá-los.
O aborrecimento e a apreensão do amigo foram trocadas por gostosas risadas.
Por Omar Torres
Memorialista curaçaense e Administrador
