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Festa dos Vaqueiros de Curaçá: 72 anos de tradição no sertão baiano

Vaqueiros uniformizados com gibão, chapéu de couro, perneira, peitoral, sapato de couro, guiada, corda, facão, faca, alforje, machadinho, frasco de mercúrio, tabaqueiro de torrado, copo de chifre, jogo de peias, chocalho, mochila para milho, cavalos no completo dos arreios. Esse é o cenário apreciado pelos moradores da cidade de Curaçá, norte da Bahia, durante os três dias de uma das principais festividades do município: a Festa dos Vaqueiros. Neste ano os 72 anos da festa serão comemorados entre 4 e 6 de Julho.

O festejo teve início no ano de 1953 quando a comunidade curaçaense comemorava o seu centenário. Neste dia, a população preparou várias homenagens que recordassem os símbolos históricos da cidade e dentre eles estava o vaqueiro. De acordo com os moradores a festa foi idealizada pelo prefeito da época Gilberto Bahia.

Na ocasião cerca de 40 homens participaram de um pequeno desfile pelas principais ruas da cidade. Todos trajavam roupas de couro, traje típico para a lida na caatinga. Após o desfile houve um almoço na fazenda do senhor Sindolfo Rosa (mais tarde um dos fundadores da Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá) para todos os integrantes.

Os moradores apreciaram o desfile e no ano seguinte resolveram organizá-lo novamente. A partir desse ano a Festa dos Vaqueiros adentrou ao calendário festivo de Curaçá, tendo como data de realização o feriado de 2 de julho, dia que se comemora a Independência da Bahia.

Até a década de 1970, segundo depoimento de um dos memorialistas de Curaçá Omar Torres, o festejo tinha cunho comunitário. Os próprios vaqueiros organizavam a programação que era preenchida por três grandes momentos: Desfile dos Vaqueiros, Forró da Espora, Corridas de Prado. Com o passar dos anos a Missa Campal começou a ser realizada na Igreja Matriz Bom Jesus da Boa Morte.

O Forró da Espora, a princípio, acontecia no Salão Estrela do Norte que também pertencia ao Sr. Sindolfo. Para entrar na festa, os vaqueiros deveriam estar uniformizados com guarda-peito e chapéu de couro.

Sobre os primeiros anos da Festa dos Vaqueiros, o escritor curaçaense, Esmeraldo Lopes, na sua obra Caminhos de Curaçá, descreve: “Os aboios, onde houvesse vaqueiro, o dia todo. A rua para os cavalos, o povo que se desviasse. À tarde, as corridas, a escolha do cavalo mais bonito, a escolha do vaqueiro melhor encourado, os prêmios. O povo da rua vendo, aplaudindo, admirando, se orgulhando. De noite as danças. Forró para todo lado. Vaqueiro não pagava em canto nenhum. Documento de vaqueirice: o peitoral. Alguns se acompanhavam de chicote, de espora, ainda nos couros. Festa de Vaqueiro. (LOPES, 2000:41)”.

A cada ano, a Festa dos Vaqueiros foi incorporando novos símbolos, sentidos, e tomando proporções gigantescas na região do Vale do São Francisco. Em 14 de Agosto de 1959 foi fundada a Sociedade dos Vaqueiros, a primeira associação do município voltada para representar o vaqueiro. A Sociedade, na sua maioria, era formada por grandes fazendeiros pertencentes às famílias tradicionais e políticos. Com o tempo, os membros da associação tornaram-se os responsáveis pela organização da programação da festa.

Desde os anos 70 artistas renomados da música brasileira, como o Rei Luiz Gonzaga, começaram a se apresentar no festejo, em virtude da aparência constante de grupos políticos na organização da festa. Na década de 1980, com o intuito de atrair mais visitantes e turistas, os integrantes da Sociedade decidiram transferir a ocorrência da comemoração do dia 02 de Julho para o primeiro final de semana do mesmo mês. A festa passou a contar com três dias de comemoração: na sexta Chegada dos Vaqueiros; no sábado Almoço dos Vaqueiros e Forró da Espora; e no domingo Desfile, Missa Campal e Corridas de Prado.

O vaqueiro Deroaldo Carvalho, mais conhecido como Deró, em entrevista no ano de 2010 a esta jornalista falou sobre a mudança da data do festejo. “A festa era no dois de julho, na data da Independência da Bahia. Mas com o tempo nossos políticos se apoderaram da festa e trocaram a data para o primeiro final de semana de Julho. Essas questões políticas para o vaqueiro não agrada nada, mas para eles sim”.

Nos anos 80 surge também dentro da programação da festa o Almoço dos Vaqueiros na fazenda Saudade, propriedade do vaqueiro Luisinho Lopes. Durante o encontro os participantes faziam disputas de aboios e geralmente a animação era feita pelos aboiadores da região.

Na década de 1990, a festa continuou a crescer e além do poio de governantes passou a contar com os artifícios da mídia. Artistas de renome regional e nacional atraiam um grande número de turistas e visitantes. A Festa dos Vaqueiros passou a conquistar o Vale do São Francisco e demais regiões do Brasil.

Percorrendo a trajetória da festa chegamos aos anos 2000. Em 2002, em virtude de desentendimentos entre alguns membros da Sociedade dos Vaqueiros, uma nova associação é formada, sendo denominada Associação de Vaqueiros e Pecuaristas de Curaçá (AVAPEC). Mais uma vez o fator político emerge dentro da festa e nos próximos dez anos a comunidade vivenciou a realização de duas festas de vaqueiros.

Em homenagem ao sexagésimo ano da festa, que ocorreu em 2013, a Sociedade dos Vaqueiros e a AVAPEC se uniram, e estavam à frente da organização cultural da comemoração. “Esse é um marco histórico. Conseguimos quebrar um tabu de dez anos que dividia a festa em dois momentos. Ainda encontramos resistência por parte de alguns membros, no entanto, sabemos que a união é o melhor caminho para a conquista de projetos futuros”, comentou, à época, o presidente da Sociedade dos Vaqueiros, Estéfano Pereira. Vale lembrar que a união das associações aconteceu durante o governo do prefeito Carlinhos Brandão.

Nos últimos oito anos da gestão do Prefeito Pedro Oliveira vimos um resgate do personagem principal da festa, que é o vaqueiro. Foram criados circuitos dançantes como o da Avenida Drº Pedro Santos Torres e o do Pátio de Eventos, próximo ao Estádio Municipal. Campanha de arrecadação de alimentos também foi incorporada a festa, assim como a entrega das chaves das cidades a vaqueiros homenageados.

Os turistas continuaram a visitar a cidade, o que tornou a festa bastante empreendedora.

Em 2025 chegamos a edição 72ª da Festa dos Vaqueiros e a expectativa é grande para expressar a nossa identidade nordestina nas mais diversas linguagens da literatura, da gastronomia, do nosso modo genuinamente curaçaense tão envolvido com o sentimento de “vaqueirice”.

Por Alinne Torres

Jornalista e Mestra em Cultura e Sociedade pela UFBA

Foto: Refere-se a década de 50/60 nos primeiros anos da Festa. Pertencem ao arquivo pessoal do morador de Curaçá Gilbertinho Bahia.

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