Curaçá Oficial

Projeto de Curaçá ganha destaque em revista científica internacional.

Acaba de ser publicado na Conservation Biology — uma das revistas científicas mais importantes do mundo na área ambiental — o artigo “Coexistência e planejamento da restauração do habitat para a reintrodução da ararinha-azul”, de autoria de Ugo Vercillo, Silvio Marchini, Matheus Fritzsons e José Luiz Franco. A pesquisa apresenta os caminhos construídos em conjunto com a população de Curaçá (BA) para garantir a convivência entre a comunidade local e a ararinha-azul, ave símbolo da Caatinga que voltou a viver livre na natureza depois de mais de 20 anos considerada extinta.

A publicação apresenta um modelo chamado Desenvolvimento Territorial Baseado na Conservação. O estudo defende de que é possível conservar a natureza ao mesmo tempo em que se promove qualidade de vida para quem vive no território. Ou seja, não se trata de escolher entre natureza ou gente — mas de construir soluções que beneficiem ambos.

Com o apoio da população, das instituições e do poder público, Curaçá pode se tornar um exemplo mundial de como proteger uma espécie emblemática e, ao mesmo tempo, fortalecer uma comunidade que vive da terra.

A publicação internacional reconhece o esforço coletivo e o pioneirismo de um modelo que alia conservação da natureza com desenvolvimento social e econômico. A seguir, explicamos os principais resultados do estudo.

Curaçá no centro da conservação global

Realizado pela equipe da Blue Sky o estudo traz os resultados do levantamento socioeconômico realizado 2022 e 2023, com o apoio do Instituto Mata Branca. Foram realizadas entrevistas com moradores de 288 propriedades da zona rural de Curaçá. O levantamento mostrou que a maioria das famílias vive na terra sem escritura formal e tem na criação de bodes e ovelhas sua principal fonte de sustento. Muitas pessoas dependem de programas sociais como o Bolsa Família e aposentadorias para complementar a renda.

A pesquisa também apontou os principais desafios enfrentados pela população: falta de água, renda baixa, dificuldades na saúde pública e a ausência de documentação das terras. Mesmo com esses obstáculos, a maioria das pessoas demonstrou forte vínculo com a terra e disposição para permanecer na região.

O reencontro com a ararinha-azul

A ararinha-azul voltou à natureza em 2022, com a soltura de 20 aves nas Unidades de Conservação criadas em 2018 nos municípios de Juazeiro e Curaçá. Para garantir o sucesso dessa reintrodução, não basta soltar os animais: é preciso criar condições para que eles sobrevivam e convivam em harmonia com os moradores.

Pensando nisso, em 2024 foi realizado um grande encontro em Curaçá com representantes da comunidade, sindicatos, ONGs, pesquisadores e órgãos públicos. O objetivo era compreender como as atividades humanas impactam a ararinha — tanto de forma positiva quanto negativa — e planejar ações que favoreçam essa convivência.

Foram identificadas interações importantes como a criação extensiva de animais, a caça, o desmatamento, o turismo, a restauração da Caatinga, e o próprio processo de reintrodução da ave. Com base nisso, foi criada uma teoria da mudança, ferramenta que ajuda a organizar os objetivos e estratégias de forma clara.

Um plano para os próximos 10 anos

Durante o workshop, foram propostas 49 ações para os próximos dez anos. As prioridades são: capacitar produtores rurais para o uso sustentável da terra, apoiar a regularização fundiária, fomentar o turismo de base comunitária e o artesanato local, além de promover o reflorestamento da Caatinga — o chamado “recaatingamento”.

Também foi definido um plano de acompanhamento com metas e indicadores, para monitorar os avanços ao longo do tempo e garantir que as mudanças sejam concretas e positivas tanto para a população quanto para o meio ambiente.

Reconhecimento internacional e agradecimento local

O trabalho reconhecido pela Conservation Biology é fruto da participação ativa da população de Curaçá. Os autores agradecem às famílias que abriram suas casas, aos entrevistadores locais e às instituições parceiras. O artigo mostra que a conservação da ararinha-azul é uma missão coletiva — feita com diálogo, ciência, e principalmente, com respeito e confiança na força da comunidade. Cuidar da ararinha é também cuidar das pessoas.

📚 Para quem quiser ler o artigo completo (em inglês), ele está disponível gratuitamente no site da revista:
🔗 https://doi.org/10.1111/cobi.70105

Fonte e foto: Ascom/BlueSky

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